Minha primeira lembrança de racismo foi com uns 7 anos, na Kombi que me levava da escola pra casa. Eu era nova ali e era extremamente tímida. Sentei num cantinho e fiquei lá, tremendo de vergonha. A menina de olhos azuis e cabelo bem loirinho era da minha idade. Estava na mesma série, mas não era da minha sala. Ela entrou na Kombi e não quis sentar do meu lado. A “tia da Kombi” pediu pra ela se sentar, já que outras crianças precisavam entrar. Ela começou a gritar e disse que não se sentaria do lado da neguinha do esgoto. Tinha nojo de favelada. Não me lembro da tia da Kombi falar nada, nem da reação das outras crianças . Na verdade só lembro do silêncio da única pessoa adulta ali...e do buraco que se abriu em mim, vergonha e vontade de sumir. Aí com uns 11 anos lembro do dia que fui tentar me enturmar com o pessoal do condomínio que morava. Tentar ter amigos, eu que era toda tímida e vivia no meu mundo solitário da pré-adolescência. O menino olhou pra mim e disse que tinha nojo do meu cabelo, porque devia feder, já que não era liso. Disse olhando pra mim, com cara de riso. Eu que acordava bem mais cedo pra minha mãe cuidar e moldar cacho por cacho. Que ia atrás de cremes pra deixar meus cachinhos lindos e cheirosos. Essas são algumas das lembranças que marcaram minha infância e ainda ressoam por aqui. E dá-lhe anos de terapia pra gente lidar com insegurança e baixa autoestima. Quais suas lembranças de infância?
quinta-feira, 4 de junho de 2020
quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017
Estado de Graça!
Vem de dentro. Lá
de dentro. É como uma viagem. Micro, interna. Macro, materna. De repente, luz! Que
transformação linda e intensa. Pra mim, tudo tem sido lindo. Pois
tudo tem sido aprendizado, rasgação, entrega. Cada enjôo, cada
quilo a mais, cada mancha ou marca. Tudo é história e geografia do
corpo, da vida, do espírito. Ser água é assim. É deixar a vida
fluir dentro de mim. Fora de mim. Ventre de mim. Me sinto loba. Me
sinto lua. Lua crescente. Brilhando cada vez mais. Emanando cada vez
mais energia e vibração. Vibrando todas as águas. Dentro e fora de
mim. Dentro do dentro de mim. O ventre é um mistério. O útero é
nossa caverna sagrada. E lá dentro, quando o ambiente tá bem
cuidadinho, com fogo aceso, água limpa, ar puro e terra úmida, a
vida brota. O broto nasce e cresce e cresce e cresce. E é lindo
cuidar dessa plantinha dentro da gente. É louco mesmo. A gente vira
bicho, vira planta. Vira o que somos. Parte dessa grande egrégora
ar-terra-fogo-água. Que viagem mais incrível tem sido essa das
últimas 13 semanas. Saluba! Eu, você aqui dentro, meu compa e seu papai
aqui fora. Tem sido puro amor, conexão, ancestralidade, diversão,
tesão, negritude. É muita luz. É o estado de Graça!
sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017
Xondaro
Com você
vou pro mato
pro mangue
pro norte
Com você
faço fogo
faço mate
faço arte
Nosso caminho é vermelho
é preto
é ancestral
Quatro direções nos guiam
Quatro elementos nos unem
Um céu de estrelas nos alumiam
E água nos flui pelo mundo.
Sendo tua, sou cada vez mais minha
Pois você me inspira ser quem eu sou
Quem sempre lutei e sonhei ser.
Com você
vejo flores no caminho
caminho de terra
pé no chão
tambor na mão
amor no coração
minhas raizes acharam as tuas
se embrenharam,
se emaranharam
Teu pêlo é ninho para minha pele
Tu cariño es alento para mi alma
Caranguejo de meu mangue Nanã
Mergulhas comigo pelas águas profundas.
vou pro mato
pro mangue
pro norte
Com você
faço fogo
faço mate
faço arte
Nosso caminho é vermelho
é preto
é ancestral
Quatro direções nos guiam
Quatro elementos nos unem
Um céu de estrelas nos alumiam
E água nos flui pelo mundo.
Sendo tua, sou cada vez mais minha
Pois você me inspira ser quem eu sou
Quem sempre lutei e sonhei ser.
Com você
vejo flores no caminho
caminho de terra
pé no chão
tambor na mão
amor no coração
minhas raizes acharam as tuas
se embrenharam,
se emaranharam
Teu pêlo é ninho para minha pele
Tu cariño es alento para mi alma
Caranguejo de meu mangue Nanã
Mergulhas comigo pelas águas profundas.
quarta-feira, 7 de dezembro de 2016
Quando me vi Sangue
Quando me vi sangue
menina era
crua nua
cheia de medos e
incertezas
quando me vi sangue
não sabia que
sangue era
ingenuidade de
criança
achei que tinha
feito coco na calça
era sangue escuro
preto terra
lama saindo de
dentro de mim
13 anos – número
de Nanã
minha mãe
sangue lua
despontando
ancestralidade
quando me vi sangue
me vi também
moça
mulher
negra
tantas dúvidas
tantos medos
medos que ainda vejo
em mim
quando me vejo
sangue
por muito tempo
meu sangue era pra
mim
castigo
sujeira
fardo
não sabia quanta
riqueza jorrava de mim
hoje me vejo sangue
me vejo lua
lua cheia, lua nova
me vejo conectada
com a pachamama
viramos uma só
um só útero
quando meu sangue
lama
se junta à lama
terra
sinto todas as luas
sangues
que já foram
derramadas
e que ainda serão
quando me vejo
sangue
me vejo terra
te vejo em mim
somos um grande
útero
que pulsa
sem inicio meio ou
fim.
quarta-feira, 28 de setembro de 2016
Cariño
Gosto
gosto do simples em
você
café, cheirin no
cangote
sonhou essa noite?
Gosto de tua trama
nó simples,
desenrolar
fluidez em olhos de
águia
e pureza de criança
gosto desse amor que
pulsa
livre, solto,
intenso.
quarta-feira, 31 de agosto de 2016
golpe.
Sigo embalada pelas falas de Nilma Lino Gomes hoje mais cedo: "nosso
nome é sinônimo de luta e resistência". Então, sigamos. Desafios,
conhecemos desde cedo..desde vidas atrás. Sangue no zóio, fé no coração,
firmeza na caminhada, foco nas ações. Vibro no amor, mas sinto que vem
bomba por aí, coisa pesada mesmo. Mas sei que tenho, que temos força,
temos culhão e culote pra encarar. Ninguém nunca ousou e nem ousará
tirar minha liberdade, minha vitalidade, meu asè, minha arte. Isso
carrego e protejo com unhas cheias de terra e dentes cheios de poesia e
música. Temos uma legião ancestral que nos acompanha e sopra em nossos
ouvidos a direção, as ervas, as raízes, as escolhas. Não temo, jamais
temer. Já fui queimada, enterrada, afogada, amarrada. Aprendi a voar sem
asas, sublimar, evaporar e voltar ao estado de estar. Sou água que
escorre e que penetra. sou sopro da tempestade que segue. sou salamandra
da grande fogueira. sou gota de mar profundo. sou grão de terra funda.
sei sei e cada vez sei mais viver como bicho, como pedra, como estado
bruto. sou morte e vida e morte. cheguei faz tempo e voltarei quantas
vezes for preciso.
sábado, 2 de abril de 2016
No caminho de Ita, pedra Mãe.
Do alto da montanha
tudo é muito pequeno.
Os problemas inexistem
confusões desaparecem.
A mata é quem governa.
A vida é como um sopro
de vento
na relva fresca de orvalho.
No coração da montanha
Mata virgem
Tudo pulsa intensamente
as águas jorram
dos céus, das pedras, da terra
O fogo arde
Nos raios, nas fagulhas de vida
O ar purifica
Faz as asas voarem, as folhas planarem
A terra brota
Vida, vida por todos os lados.
Lá de dentro
me vi
bem de dentro
Medos de infância
dissiparam-se nos trilhos flutuantes
soltei e deixei-me ir
embalada pela brisa atlântica.
Sob meus pés
a lama me guiou.
Lama de minha mãe,
Tiyug
Nanã
vida quente
água e terra
Firmando meu pensamento
liberando apegos
decifrando sonhos
dessa vida e das que já se foram.
A grande montanha
O grande pai
A firme mãe
Marumbi
sempre presente
potente
pedra itá
apontando rotas ancestrais
oráculo de minhas raízes negras
lembranças guarani
Protegida estive
entre seus braços galhos verdes
sua placenta água cristalina
seu colo granito lama.
Morri
E na lama me enterrei
afundei as entranhas
Expurgo.
Dissolução.
Renascida voltei
saudando o sol por trás das nuvens
abraçando o vento sussurrante
firmando os pés na raiz terra
gozando o nascer nas águas de pedra.
Xee HA'EVEte.
segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016
pretamor
Amor de preto é bom
amor de preto índio
é melhor ainda.
Sendo eu preta
sendo eu índia
Kariri Xocó
você Kaingang
nossos corpos
com cheiro de terra
nossa alma ancestral
fundida
corremos pelas matas
do meu e do seu corpo
nossa santa erva
queima…
Teu corpo no meu
encaixe perfeito
teu cheiro
meu peito
sussurro
as carnes quentes
e pretas
reencontro de almas
de peles
de olhos
esses olhos
puxados, negros
guerreiros
resistência e amor
sou Dandara
você Zumbi
sou índia brava na mata
você Tupi
guerreamos juntos
lutamos lado a lado
nossa luta
nosso amor
nosso calor
domingo, 29 de novembro de 2015
Nós, pretas
Nós, pretas
galopamos
bradamos
pisamos
somos diversas
múltiplas
e ao mesmo tempo
UMA
sangramos as mesmas feridas
somos juntamente
excluídas
nosso cabelo não é aceito
nossas formas incomodam
nosso corpo é fetichizado
nossa voz silenciada.
Somos fortes
conectadas e enraizadas
somos amor
cuidamos de nossa terra
nossa água
nossa lua
nossa pélvis
geradora de vida
de poder
de ser.
Giramos e giramos
pra nós
por nós
Não encosta
Não é pra ti
Sai,
que ninguém nos segura
Pois nós,
Pretas
galopamos
bradamos
pisamos.
(KaNêga Santos)
galopamos
bradamos
pisamos
somos diversas
múltiplas
e ao mesmo tempo
UMA
sangramos as mesmas feridas
somos juntamente
excluídas
nosso cabelo não é aceito
nossas formas incomodam
nosso corpo é fetichizado
nossa voz silenciada.
Somos fortes
conectadas e enraizadas
somos amor
cuidamos de nossa terra
nossa água
nossa lua
nossa pélvis
geradora de vida
de poder
de ser.
Giramos e giramos
pra nós
por nós
Não encosta
Não é pra ti
Sai,
que ninguém nos segura
Pois nós,
Pretas
galopamos
bradamos
pisamos.
(KaNêga Santos)
quarta-feira, 17 de junho de 2015
dosossos.
O momento está tenso. Saturno velho desestruturando estruturas e escorpião escancarando a ferida, a podridão. A terra chama, clama, pede que nos conectamos. A nós mesmos e às força de nossos ancestrais. Conexão que tem sido rechaçada...nossa fé nas forças da natureza, nosso axé, vem sendo apedrejado. Nossa maneira de amar virou fobia, nossa alimentação virou piada. Até nossa forma de ser mulher tem sido condenada...
...os pêlos que tiramos ou mantemos no corpo é vigiado e comentado… nada pode estar fora do lugar
A poesia está dura. O sensível oscila...ora quer se petrificar...ora continua teimando…
do concreto também se brota. .
sexta-feira, 29 de maio de 2015
Cheiro de Lua
A importância do estar só. Estar comigo. Com meu oculto. Com as entranhas. Com as. Lembranças que fluem pelos pontos poros lagos de mim. Do que é da terra e que me completa como terra. Que expande expõem explode. Do fundo do peito esse fruto….
Apodrecer é gerar vidas, espalhar, multiplicar criações, crias. É movimento. Geração. Gestação.
Descobertas cor de ferro cheiro de lua, lua cheia. Terra e água. Que escorre, corre, morre. Jorra e empoça e caminha lentamente. Completando, enchendo, transbordando, vivendo.
A raiz enraizando no lodo terra água. Lama. Ama. La ama. Clama. Ama. Chama. Nana. Nanã. Mama. Pacha. Pachamama.
rio e também posso chorar.
terça-feira, 5 de maio de 2015
poesias de terça cheia de lua
Negra noite
negros olhos
corpos negros
negros
negra vontade
de fundir-me a você
de ti ser
ser
negra
negra noite
negra tua
meia noite
pilarzinho
poesia correndo
solta.
Teu
meu complemento
meu completo
oposto
complementar
lua cheia
não respondo por
mim
solto-me
sou tua
tua completa lua
cabelos enredados
dredados
drenados
lua
minha lua
na tua
vermelha viva
escorrendo
sendo
crendo
lua de mim
os olhos
santos olhos
inocentes
descrentes
correntes
nosso comum
nossas raizes
Nanãs
terra lama charco
cicatrizes
corpos
mandinga
nos olhos
nós
nos
vida
é a cuspidinha na
taça
após a tragada no
cachimbo
tu és sangue
vinho sorvido
tinto
tinindo
tilintando poesia
sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015
Sobre a Lua, a Água e os Vales.
Água que escorre de mim como dessas pedras poderosas.
Águas escuras, âmbar, da cor do centro da terra. Marrom, ferro, ocre.
Água que traz emoções ancestrais.
Água que corre, limpa, lava, preenche, tira, dói e também cura.
Águas escuras, âmbar, da cor do centro da terra. Marrom, ferro, ocre.
Água que traz emoções ancestrais.
Água que corre, limpa, lava, preenche, tira, dói e também cura.
Transbordar de memórias, refazendas, dores, amores, temores. O zero e o não controle. reconectar e aprender tudo de novo. respeitar o silêncio e a solidão. Solitude. Plenitude em estar comigo e com meus transbordamentos, respeitando o estar só e o estar com o outro. Saber a hora de abrir e de fechar. de reconectar e aprofundar as constelações mais entranhadas do meu ser - espírito - mente - corpo - sensações. conexão com minha loba, lua, crua. sangra e jorra o líquido também ocre, marrom, ferroso. sangro como os montes da Chapada. renovando, limpando e expondo o que de mais profundo há nessa mãe - pachamama - mulher - criadora - feminina. Intuições fluindo como o vento da noite que sopra forte fazendo barulho. vento que também vem das pedreiras em conexão com o céu.
Alto e baixo. Cosmos. realidade. Integração.
Sou como uma dessas grandes pedras femininas que carregam o mistério da terra - vida. segunda-feira, 15 de dezembro de 2014
2 vênus em peixes
Do olho de águia que perfura qualquer superficialidade. Que atinge. Que aprofunda. Que te expande. Que abala qualquer certeza e explode em mistérios e silêncios. Os olhares, os não-olhares, os nãos e os nadas. Amplitude de possibilidades deleitando-se em uma sensação além. Oxalás e Nanãs, peixes, macacos e sóis. Espectrais, ressonantes, cores e sons que se expandem a cada troca. Pira pisciana e/ou entregas piscianas entre vênus tão semelhantes. Estruturas que se abalam para muito além de si. Dúvida e coragem. O risco de assumir o que a intuição diz. Queimando cosmos, plantando, colhendo e preparando o alimento. Dançando e brincando e pulando e sorrindo e sorrindo e rindo indo.
terça-feira, 2 de dezembro de 2014
Peixes.
Eu gosto é do mergulho. De ponta. De cabeça. Rumo ao nada. E ao tudo. Profundo fluido azul escuro. Ondas que vibram só por existir. Por conviver. Por ser. Por estar. Fluidez de pensamentos, sensações, êxtases, piras, piras. Piras. Espiral de divagações que deslizam pela superfície mundo. Dinâmica. Escorre. Preenche. Vaza. Concentra. Flui. Voa. Nada. Nada.
segunda-feira, 30 de junho de 2014
Luana Carlana de Almeida Barbosa, presente!
Eu e a Lua nos conhecemos no fim de 2006. Quando nos vimos pela primeira vez, já sabíamos que se tratava de um reencontro. Eu estava com minha mãe e ela com a mãe dela. Anos depois nossas mães comentaram que nossos olhos brilharam quando nos vimos. Passamos a cultivar uma linda e intensa amizade. Estudamos teatro juntas e vivíamos o tempo todo grudadas. Ela foi minha dupla de palhaça – eu era a Tulipa e ela a Doriana, foi minha parceira de trabalhos, eu fui a Mônica e ela o Eduardo e apanhamos muito das crianças numa festa de aniversário em que fomos palhaças. Prometemos cuidar uma da outra, não importasse a condição. Ela me chamava de Nê e gostava de pinguim e pimenta. Quando terminamos a faculdade, Lua mudou-se para Presidente Prudente, mas prometemos continuar cuidando uma da outra. Sempre que podia eu ia visitá-la, e ela fazia o mesmo. Conheci todos os seus amigos e familiares e ela conheceu os meus. A gente dormia junto e passava a noite toda conversando e rindo. Quando meu pai morreu, Lua largou tudo e veio cuidar de mim. Lembro com muito amor da madrugada fria, a gente deitada no chão da minha casa e ela fazendo carinho no meu cabelo dizendo que sempre estaria ali pra cuidar de mim. Ela era mais nova que eu, mas muito mais madura. Sempre me aconselhava e me dava broncas de irmã mais velha. A Lua sempre fez de tudo pra ver todos os amigos bem, unidos e felizes. Ela sofria com a gente, ria com a gente, amava com a gente. Sempre incentivou nosso trabalho, era a madrinha do Baquetá. Tinha um sorriso gigante e lindo e olhos que transmitiam muito amor e sabedoria. Era forte, corajosa, mas ao mesmo tempo doce e suave. As pessoas se encantavam facilmente com seu jeitinho sincero, engraçado e suave. Era uma excelente professora, uma atriz incrível, uma palhaça perfeita, uma produtora extremamente competente e uma militante ferrenha. Em uma de nossas últimas conversas no telefone, ela me disse que sua missão na terra era cuidar dos outros, que sempre as pessoas se aproximavam dela para que ela pudesse acolher e ajudar. A Lua tinha os sonhos mais loucos do mundo, era super sensível e sutil. Um dia antes de sua partida, na manhã do seu aniversário, ela me mandou uma mensagem dizendo que havia sonhado que eu e o Pedro, que ela dizia ser irmãos de outra vida dela, havíamos chegado na sua casa, numa noite chuvosa. Na hora do almoço liguei pra ela e ela estava feliz da vida, pois tinha ganhado uma tenda para sua nova peça de teatro de mamulengo. Lua estava cozinhando e sua voz era serena e alegre. Eu disse que logo mais visitaria sua nova casa. Despedimos-nos com muita saudade. Na mesma noite não dormi direito, acordei com muita dor na barriga, uns arrepios. No outro dia o tambor no porta-malas do carro caiu de cabeça pra baixo e eu comentei com o Gui e a Mari que quando isso acontecia era prenúncio de morte. Uma hora depois fiquei sabendo. A Lua se foi injustamente, por conta do abuso de poder da polícia. Muitos já se foram por conta do abuso descabido da polícia. Quem policia a polícia? Lua, por você, pelos que já foram, pelos que irão, não me calarei. Não passará. Não passará. Não passará. Te amo pra sempre. Luana Carlana de Almeida Barbosa, presente.
terça-feira, 3 de junho de 2014
quarta-feira, 11 de dezembro de 2013
mestre?
A vida nos leva para caminhos tão confusos. Nos perdemos sem
perceber....e quando nos damos conta, estamos tão longe de onde queríamos
estar, que fica difícil relembrar o
caminho. Reinvenções, trajetórias, mudanças. De repente estou longe daquele
quintal, daquele cantinho seguro com gente amada....e me sinto perdida nesse mundo
cão, mundo de construções, invenções, carreira, dinheiro, loucura, correria. A
gente se perde sem notar. Aí começamos a sentir que não estamos naquele caminho
que a gente queria, pretendia, sonhava. Começa a faltar luz, ficar escuro, com
espinhos, sangue, luto. A gente sofre cada dia um pouco mais, por sentir que
está cada dia mais longe de onde queria. Aí o corpo começa a responder, começa
a pedir arrego, começa a manifestar sua falta de satisfação. Você está perdida,
com medo, sofrendo, sendo empurrada para um lugar onde talvez não queira estar.
Se dá conta que não tá dando conta, não porque não consegue, mas porque não
quer, principalmente porque não faz sentido algum. É um forçar de barra. Um
empurra e não vai. Aí surge o medo de desistir, de mudar, de voltar para onde
queria, de se arrepender.
A vida é uma constante pira, um jogo mesmo. Um estar
e não estar. Um estar perdido constante. É como se não fosse daqui. Como se não
se encaixasse quem eu sou do que eu faço. Me encontro nas cores, nos sons, no movimento
e no tambor. Não me encontro nas discussões, reflexões, letras, palavras,
textos sem fim sem fim sem fim. Na luta pelo melhor, pelo mais eloquente, pelo
mais habilidoso. Ser foda e escrever muito, e saber se comunicar e saber
escrever e saber falar. Aí você pensa em desistir e vem aquele medo medo medo
medo do arrependimento do depois. Do quando não existir mais. Medo da dor não
passar mesmo depois disso tudo. Pois ela pode estar mais interna do que
imaginamos. É um medo sem fim, medo da falta, medo do excesso.
terça-feira, 10 de dezembro de 2013
Sobre sentir na pele.
Tem gente que ainda insiste em criticar o dia da consciência negra, o sistema de cotas raciais nas universidades e concursos, as reflexões feitas sobre a importância da população negra para o Brasil. Isso me fez lembrar a história de vida do meu pai, que lutou a vida inteira pra tentar ser branco e no último mês de vida percebeu que era negro e que isso era bom. Só quem SENTE NA PELE é que sabe...meu pai demorou UMA VIDA INTEIRA pra construir sua autoestima. Negro, tornou-se professor universitário, estudou muito e não era menos capaz que outra pessoa. Ele aproveitou a oportunidade que teve, após sair de um trabalho escravo no interior de SP como cortador de cana. Apenas no último MÊS de vida, após uma conversa que tivemos, ele parou, pensou e disse: "Puxa, sempre quis negar essa negritude. Ela sempre me fez sofrer e ser menos que muita gente". Quando ele entrou na última faculdade em que deu aula, os professores e alunos o chamavam de "professor crioulo". Ele lutou muito, mas muito mesmo contra o racismo institucional e dos alunos e tornou-se o coordenador do curso. Foi quando ele pensou: Puxa, MESMO SENDO NEGRO consegui chegar aqui. E isso só aconteceu depois de muita conversa, de muita leitura e reflexão. É bem difícil mesmo quando você não sente, não passa por isso. E ainda tem gente que acha que o silenciamento sobre o racismo é a melhor saída. Meu pai me disse que só conseguiu se aceitar e se sentir feliz quando percebeu que o negro podia estar na faculdade, podia dar aula, que não era inferior a ninguém. E isso aconteceu graças aos vários pensadores e pensadoras negras, às políticas afirmativas e aos dias da consciência negra, que o fizeram refletir e se sentir GENTE. Não é fácil ter orgulho de sua identidade sabendo que sua avó foi estuprada por um senhore de engenho, sabe. Quando não conseguimos saber quem era e como viviam nossos antepassados, simplesmente porque eram mercadoria de algum fazendeiro desse Brasil. Chega a doer quando vemos comentários que falam que existe igualdade. Gostaria muito que existisse, luto para que isso aconteça. Luto diariamente na universidade, na rua, na arte, na vida. Luto pela igualdade, pela melhoria do sistema escolar, pela reflexão.
quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012
sobre nós
Lua.mel. chuva.transe.dança contemporânea. Nu. Sol. Água. Mar.entrega. transa. Som. Toque. Cor. Fruta. Cachoeira. Argila. Rio. Pão-de-queijo. Rio. Ponte. Gozo. Olhar. Mesa. Colchão na sala. Viola. Rabeca. Barulho. Riso. Abraço. Cheiro. Lábios. Suspiro. Silêncio. Cumplicidade. Beijo. Calor. Mantra. Ousadia. Sincronicidade. Lindo. Sonho. Sal. Peixe. Chave. Tesão. Planos. Funk. Dente. Dread. Tatuagem. Fogo. África. Embalo. Paixão. Volúpia. Troca. Nariz. Pernas. Afago. Mordida. Germinada. Raios. Lençol. Música. Kefir. Louça. Mãe. Gás. Sono. Sorvete. Sinergia. Energia. Mão. Mamão. Meditação. Improviso. Corpos. Loucos. Eu. Tu. Nós. Carnaval.
Assinar:
Postagens (Atom)
















