sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Sobre a Lua, a Água e os Vales.

Água que escorre de mim como dessas pedras poderosas.
 Águas escuras, âmbar, da cor do centro da terra. Marrom, ferro, ocre.
  Água que traz emoções ancestrais.
   Água que corre, limpa, lava, preenche, tira, dói e também cura.
Transbordar de memórias, refazendas, dores, amores, temores. O zero e o não controle. reconectar e aprender tudo de novo. respeitar o silêncio e a solidão. Solitude. Plenitude em estar comigo e com meus transbordamentos, respeitando o estar só e o estar com o outro. Saber a hora de abrir e de fechar. de reconectar e aprofundar as constelações mais entranhadas do meu ser - espírito - mente - corpo - sensações. conexão com minha loba, lua, crua. sangra e jorra o líquido também ocre, marrom, ferroso. sangro como os montes da Chapada. renovando, limpando e expondo o que de mais profundo há nessa mãe - pachamama - mulher - criadora - feminina. Intuições fluindo como o vento da noite que sopra forte fazendo barulho. vento que também vem das pedreiras em conexão com o céu.
Alto e baixo. Cosmos. realidade. Integração.
          Sou como uma dessas grandes pedras femininas que carregam o mistério da terra - vida.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

2 vênus em peixes


Do olho de águia que perfura qualquer superficialidade. Que atinge. Que aprofunda. Que te expande. Que abala qualquer certeza e explode em mistérios e silêncios. Os olhares, os não-olhares, os nãos e os nadas. Amplitude de possibilidades deleitando-se em uma sensação além. Oxalás e Nanãs, peixes, macacos e sóis. Espectrais, ressonantes, cores e sons que se expandem a cada troca. Pira pisciana e/ou entregas piscianas entre vênus tão semelhantes. Estruturas que se abalam para muito além de si. Dúvida e coragem. O risco de assumir o que a intuição diz. Queimando cosmos, plantando, colhendo e preparando o alimento. Dançando e brincando e pulando e sorrindo e sorrindo e rindo indo.
 
 

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Peixes.


Eu gosto é do mergulho. De ponta. De cabeça. Rumo ao nada. E ao tudo. Profundo fluido azul escuro. Ondas que vibram só por existir. Por conviver. Por ser. Por estar. Fluidez de pensamentos, sensações, êxtases, piras, piras. Piras. Espiral de divagações que deslizam pela superfície mundo. Dinâmica. Escorre. Preenche. Vaza. Concentra. Flui. Voa. Nada. Nada.
 

segunda-feira, 30 de junho de 2014

Luana Carlana de Almeida Barbosa, presente!

Eu e a Lua nos conhecemos no fim de 2006. Quando nos vimos pela primeira vez, já sabíamos que se tratava de um reencontro. Eu estava com minha mãe e ela com a mãe dela. Anos depois nossas mães comentaram que nossos olhos brilharam quando nos vimos. Passamos a cultivar uma linda e intensa amizade. Estudamos teatro juntas e vivíamos o tempo todo grudadas. Ela foi minha dupla de palhaça – eu era a Tulipa e ela a Doriana, foi minha parceira de trabalhos, eu fui a Mônica e ela o Eduardo e apanhamos muito das crianças numa festa de aniversário em que fomos palhaças. Prometemos cuidar uma da outra, não importasse a condição. Ela me chamava de Nê e gostava de pinguim e pimenta. Quando terminamos a faculdade, Lua mudou-se para Presidente Prudente, mas prometemos continuar cuidando uma da outra. Sempre que podia eu ia visitá-la, e ela fazia o mesmo. Conheci todos os seus amigos e familiares e ela conheceu os meus. A gente dormia junto e passava a noite toda conversando e rindo. Quando meu pai morreu, Lua largou tudo e veio cuidar de mim. Lembro com muito amor da madrugada fria, a gente deitada no chão da minha casa e ela fazendo carinho no meu cabelo dizendo que sempre estaria ali pra cuidar de mim. Ela era mais nova que eu, mas muito mais madura. Sempre me aconselhava e me dava broncas de irmã mais velha. A Lua sempre fez de tudo pra ver todos os amigos bem, unidos e felizes. Ela sofria com a gente, ria com a gente, amava com a gente. Sempre incentivou nosso trabalho, era a madrinha do Baquetá. Tinha um sorriso gigante e lindo e olhos que transmitiam muito amor e sabedoria. Era forte, corajosa, mas ao mesmo tempo doce e suave. As pessoas se encantavam facilmente com seu jeitinho sincero, engraçado e suave. Era uma excelente professora, uma atriz incrível, uma palhaça perfeita, uma produtora extremamente competente e uma militante ferrenha. Em uma de nossas últimas conversas no telefone, ela me disse que sua missão na terra era cuidar dos outros, que sempre as pessoas se aproximavam dela para que ela pudesse acolher e ajudar. A Lua tinha os sonhos mais loucos do mundo, era super sensível e sutil. Um dia antes de sua partida, na manhã do seu aniversário, ela me mandou uma mensagem dizendo que havia sonhado que eu e o Pedro, que ela dizia ser irmãos de outra vida dela, havíamos chegado na sua casa, numa noite chuvosa. Na hora do almoço liguei pra ela e ela estava feliz da vida, pois tinha ganhado uma tenda para sua nova peça de teatro de mamulengo. Lua estava cozinhando e sua voz era serena e alegre. Eu disse que logo mais visitaria sua nova casa. Despedimos-nos com muita saudade. Na mesma noite não dormi direito, acordei com muita dor na barriga, uns arrepios. No outro dia o tambor no porta-malas do carro caiu de cabeça pra baixo e eu comentei com o Gui e a Mari que quando isso acontecia era prenúncio de morte. Uma hora depois fiquei sabendo. A Lua se foi injustamente, por conta do abuso de poder da polícia. Muitos já se foram por conta do abuso descabido da polícia. Quem policia a polícia? Lua, por você, pelos que já foram, pelos que irão, não me calarei. Não passará. Não passará. Não passará. Te amo pra sempre. Luana Carlana de Almeida Barbosa, presente.

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

mestre?

A vida nos leva para caminhos tão confusos. Nos perdemos sem perceber....e quando nos damos conta, estamos tão longe de onde queríamos estar, que fica difícil relembrar  o caminho. Reinvenções, trajetórias, mudanças. De repente estou longe daquele quintal, daquele cantinho seguro com gente amada....e me sinto perdida nesse mundo cão, mundo de construções, invenções, carreira, dinheiro, loucura, correria. A gente se perde sem notar. Aí começamos a sentir que não estamos naquele caminho que a gente queria, pretendia, sonhava. Começa a faltar luz, ficar escuro, com espinhos, sangue, luto. A gente sofre cada dia um pouco mais, por sentir que está cada dia mais longe de onde queria. Aí o corpo começa a responder, começa a pedir arrego, começa a manifestar sua falta de satisfação. Você está perdida, com medo, sofrendo, sendo empurrada para um lugar onde talvez não queira estar. Se dá conta que não tá dando conta, não porque não consegue, mas porque não quer, principalmente porque não faz sentido algum. É um forçar de barra. Um empurra e não vai. Aí surge o medo de desistir, de mudar, de voltar para onde queria, de se arrepender.
 A vida é uma constante pira, um jogo mesmo. Um estar e não estar. Um estar perdido constante. É como se não fosse daqui. Como se não se encaixasse quem eu sou do que eu faço. Me encontro nas cores, nos sons, no movimento e no tambor. Não me encontro nas discussões, reflexões, letras, palavras, textos sem fim sem fim sem fim. Na luta pelo melhor, pelo mais eloquente, pelo mais habilidoso. Ser foda e escrever muito, e saber se comunicar e saber escrever e saber falar. Aí você pensa em desistir e vem aquele medo medo medo medo do arrependimento do depois. Do quando não existir mais. Medo da dor não passar mesmo depois disso tudo. Pois ela pode estar mais interna do que imaginamos. É um medo sem fim, medo da falta, medo do excesso. 

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Sobre sentir na pele.

Tem gente que ainda insiste em criticar o dia da consciência negra, o sistema de cotas raciais nas universidades e concursos, as reflexões feitas sobre a importância da população negra para o Brasil. Isso me fez lembrar a história de vida do meu pai, que lutou a vida inteira pra tentar ser branco e no último mês de vida percebeu que era negro e que isso era bom. Só quem SENTE NA PELE é que sabe...meu pai demorou UMA VIDA INTEIRA pra construir sua autoestima. Negro, tornou-se professor universitário, estudou muito e não era menos capaz que outra pessoa. Ele aproveitou a oportunidade que teve, após sair de um trabalho escravo no interior de SP como cortador de cana. Apenas no último MÊS de vida, após uma conversa que tivemos, ele parou, pensou e disse: "Puxa, sempre quis negar essa negritude. Ela sempre me fez sofrer e ser menos que muita gente". Quando ele entrou na última faculdade em que deu aula, os professores e alunos o chamavam de "professor crioulo". Ele lutou muito, mas muito mesmo contra o racismo institucional e dos alunos e tornou-se o coordenador do curso. Foi quando ele pensou: Puxa, MESMO SENDO NEGRO consegui chegar aqui. E isso só aconteceu depois de muita conversa, de muita leitura e reflexão. É bem difícil mesmo quando você não sente, não passa por isso. E ainda tem gente que acha que o silenciamento sobre o racismo é a melhor saída. Meu pai me disse que só conseguiu se aceitar e se sentir feliz quando percebeu que o negro podia estar na faculdade, podia dar aula, que não era inferior a ninguém. E isso aconteceu graças aos vários pensadores e pensadoras negras, às políticas afirmativas e aos dias da consciência negra, que o fizeram refletir e se sentir GENTE. Não é fácil ter orgulho de sua identidade sabendo que sua avó foi estuprada por um senhore de engenho, sabe. Quando não conseguimos saber quem era e como viviam nossos antepassados, simplesmente porque eram mercadoria de algum fazendeiro desse Brasil. Chega a doer quando vemos comentários que falam que existe igualdade. Gostaria muito que existisse, luto para que isso aconteça. Luto diariamente na universidade, na rua, na arte, na vida. Luto pela igualdade, pela melhoria do sistema escolar, pela reflexão.